"Os Travessos", "Sorriso Maroto", "Jeito Moleque".
Dez contra um que, no dia em que alguém der o nome de "Senso do Ridículo" a uma banda de pagode, ocorrerá uma quebra no continuum tempo-espaço que romperá a tessitura do universo e precipitará o fim dos tempos.
Por água abaixo
Esqueceram de puxar a descarga no sétimo dia...
Segunda-feira, Julho 09, 2007
Quinta-feira, Julho 05, 2007
Coisas cariocas que torram o saco
A pior idiossincrasia do Rio são os motoristas adiantadinhos. Desde que algumas empresas de ônibus inventaram um tipo de regra determinando um tempo mínimo para cada viagem dos veículos e proibiram as ultrapassagens, pegar a condução na segunda metade do trajeto virou uma loteria.
Dependendo da sua sorte, você pode pegar um ônibus pilotado por um atrasado. Ou seja, o cara que de repente se toca de que não vai conseguir cumprir o horário e começa a desembestar o carro. Nesse caso, sua única opção é segurar firme e esperar aquilo acabar. Se estiver com comendo, bebendo, lendo ou algo parecido, pare ou até saia do ônibus, pra não dar merda. Mas, se serve de consolo, você provavelmente vai chegar muito antes do que imagina em seu destino.
Ou então você pode ter nascido cagado e dar o azar de pegar um ônibus dirigido por um cara adiantado, ou seja, o que percebe que vai chegar antes da hora e começa a andar em ritmo de lesma. É o cúmulo da filhadaputagem. São os mais revoltantes, principalmente se você estiver atrasado - mas pelo menos você pode conversar com alguém que esteja caminhando na rua, pode dormir sem se preocupar, pode manipular nitroglicerina, etc. Esta situação é a única em que você pode ver coisas inimagináveis como motoristas fazendo cera para esperar o sinal verde fechar, ou parando para deixar velhinhas atravessar a rua.
Eu vi a pior de todas: estava no último ônibus em um comboio de três 128 (Rodoviária - Leblon). Os dois da frente haviam ultrapassado aquele em que eu estava, que havia saído primeiro da garagem. Na altura da Lagoa Rodrigo de Freitas, sabendo que não poderiam chegar antes, começaram a andar numa velocidade ridícula para que o último tomasse a ponta novamente. Mas o piloto, que estava melindradinho por ter sido ultrapassado, começou a fazer cu doce e a praticamente rastejar o ônibus pela rua, acompanhando o passo do resto da procissão.
Os condutores dos primeiros ônibus, não entendendo porque o último não os ultrapassava, resolveram encostar em um largo na Prudente de Moraes para abrir espaço para o colega. Mas aí o motorista do carro em que eu me encontrava virou pinto no lixo. "Eu é que não vou ultrapassar, fizeram a cagada agora que se foda! Vou parar também e quero ver virem falar merda!"
E foi encostando na calçada, quando de repente um solavanco abala o ônibus. O imbecil tinha ralado metade da lateral do veículo em uma árvore dessas de calçada, quebrando alguns frisos e acabando com a pintura do ônibus. Teve que colocar todos os passageiros em um dos ônibus da frente e ficar para trás, conferindo o que tinha quebrado. E nós pudermos seguir o resto da viagem na velocidade normal, agora de muito melhor humor. São essas ironias do destino que fazem o mundo valer a pena.
Dependendo da sua sorte, você pode pegar um ônibus pilotado por um atrasado. Ou seja, o cara que de repente se toca de que não vai conseguir cumprir o horário e começa a desembestar o carro. Nesse caso, sua única opção é segurar firme e esperar aquilo acabar. Se estiver com comendo, bebendo, lendo ou algo parecido, pare ou até saia do ônibus, pra não dar merda. Mas, se serve de consolo, você provavelmente vai chegar muito antes do que imagina em seu destino.
Ou então você pode ter nascido cagado e dar o azar de pegar um ônibus dirigido por um cara adiantado, ou seja, o que percebe que vai chegar antes da hora e começa a andar em ritmo de lesma. É o cúmulo da filhadaputagem. São os mais revoltantes, principalmente se você estiver atrasado - mas pelo menos você pode conversar com alguém que esteja caminhando na rua, pode dormir sem se preocupar, pode manipular nitroglicerina, etc. Esta situação é a única em que você pode ver coisas inimagináveis como motoristas fazendo cera para esperar o sinal verde fechar, ou parando para deixar velhinhas atravessar a rua.
Eu vi a pior de todas: estava no último ônibus em um comboio de três 128 (Rodoviária - Leblon). Os dois da frente haviam ultrapassado aquele em que eu estava, que havia saído primeiro da garagem. Na altura da Lagoa Rodrigo de Freitas, sabendo que não poderiam chegar antes, começaram a andar numa velocidade ridícula para que o último tomasse a ponta novamente. Mas o piloto, que estava melindradinho por ter sido ultrapassado, começou a fazer cu doce e a praticamente rastejar o ônibus pela rua, acompanhando o passo do resto da procissão.
Os condutores dos primeiros ônibus, não entendendo porque o último não os ultrapassava, resolveram encostar em um largo na Prudente de Moraes para abrir espaço para o colega. Mas aí o motorista do carro em que eu me encontrava virou pinto no lixo. "Eu é que não vou ultrapassar, fizeram a cagada agora que se foda! Vou parar também e quero ver virem falar merda!"
E foi encostando na calçada, quando de repente um solavanco abala o ônibus. O imbecil tinha ralado metade da lateral do veículo em uma árvore dessas de calçada, quebrando alguns frisos e acabando com a pintura do ônibus. Teve que colocar todos os passageiros em um dos ônibus da frente e ficar para trás, conferindo o que tinha quebrado. E nós pudermos seguir o resto da viagem na velocidade normal, agora de muito melhor humor. São essas ironias do destino que fazem o mundo valer a pena.
Domingo, Maio 13, 2007
Do Globo de hoje: "quando a burocracia emPACa (...)"
Jornalistas deviam ser proibidos por lei de fazer trocadilhos, metáforas e malabarismos afins com a língua portuguesa. Por pura falta de habilidade da imensa maioria (pelo menos do que eu já li).
É que eu não tive a sensatez nem o saco de ficar guardando essas coisas, mas a lista seria imensa.
Sentença: prisão perpétua e trabalhos forçados escrevendo edital de licitação pro governo pra pagar a estadia na prisão e a ração.
Jornalistas deviam ser proibidos por lei de fazer trocadilhos, metáforas e malabarismos afins com a língua portuguesa. Por pura falta de habilidade da imensa maioria (pelo menos do que eu já li).
É que eu não tive a sensatez nem o saco de ficar guardando essas coisas, mas a lista seria imensa.
Sentença: prisão perpétua e trabalhos forçados escrevendo edital de licitação pro governo pra pagar a estadia na prisão e a ração.
Segunda-feira, Março 26, 2007
Grammy geográfico
Há um tempo falei aqui da mania de metalinguagem de sambistas. Agora descobri que o assunto já foi até abordado academicamente, como se pode ver aqui. O artigo é legal e cita vários tipos de meta-samba, usando entre os exemplos o Samba da Benção e Mas Que Nada, que por acaso também citei no post.
Mas hoje, a discussão musical é sobre outra mania de compositores: a de encher lingüiça em uma letra incluindo nomes de lugares. Às vezes o artifício é mais sutil, como em Bebel, do Farofa Carioca:
Andando pelas ruas da cidade,
Na Presidente Vargas, paro na Central.
Eu dou bandeira na Praça da Bandeira,
Pago mico no Méier, Madureira,
Mas a mina da Vila Isabel, que é uma mulher sensacional,
Que pára o trânsito, cheia de charme,
O Rio de Janeiro é a capital
Adiante, na mesma música menciona-se ainda Irajá, Piedade, Alto (da Boa Vista) e Corcovado. Bebel é um caso em que a enumeração de lugares parece ser bem utilizada, constituindo o próprio centro conceitual da música. O problema é que, quando chega o refrão, percebemos que é apenas mais um caso de impontualidade de Seu Jorge - que conta à moça do título todos os lugares por onde passou e pegou engarrafamento, numa tentativa de ser perdoado pelo atraso. Sei não. Na minha opinião, São Gonça (aquela "Pretinha!! Uuuuh") é uma versão muito melhor do mesmo fato.
Em outros casos, a lista geográfica tem a ver com a música, mas a inserção acaba sendo meio forçada. Como Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia, na qual do nada aparecem três versos com nomes de lugares:
Uma luz azul me guia
Com a firmeza e os lampejos do farol
E os recifes lá de cima
Me avisam dos perigos de chegar
Angra dos Reis e Ipanema
Iracema, Itamaracá
Porto Seguro, São Vicente
Braços abertos sempre a esperar
Pois bem cheguei
Quero ficar bem à vontade
Na verdade eu sou assim
Descobridor dos sete mares
Navegar eu quero
Em seguida, entram também na roda Boa Viagem, Ubatuba, Grumari, Mengo, Guarujá, Praia Vermelha e Ilhabela. Ressalvas quanto à inserção das praias do Flamengo e Vermelha na letra, rebaixando seriamente o nível de pureza das águas da lista.
E como o leitor provavelmente já tinha imaginado, o recorde de nonsense, descabimento e gratuidade na utilização da geografia em uma música vai pra Claudinho e Buchecha com Nosso Sonho, onde ocorre a seguinte avalanche:
Na Praça da Playboy ou em Niterói, na Fazenda Chumbada ou no Coez. Quitungo, Guaporé, nos locais do Jacaré, Taquara, Furna e Faz-quem-quer. Barata, Cidade de Deus, Borel e a Gambá, Marechal, Urucânia, Irajá, Omosmorana, Guadalupe, Sangue-areia e Pombal, Vigário Geral, Rocinha e Vidigal. Coronel, Mutuapira, Itaguaí e Sacy. Andaraí, Iriri, Salgueiro, Catibiri, Engenho novo, Gramacho, Méier, Inhaúma, Arará.
Vila Aliança, Mineira, Mangueira e a Vintém, na Posse e Madureira, Nilópolis, Xerém. Hors Concours!!
O mais surpreendente é que, logo após esse jorro, somos brindados com
Ou em qualquer lugar, eu vou te admirar.
Porra! Como assim "ou em qualquer lugar"? Sobrou algum que ele não tenha citado? Porque desfiar toda aquela lista de comunidades em que ele admiraria a moça se, logo depois, ele ia dizer que o faria "em qualquer lugar"? Redundância? Artifício de retórica? Ou será que ele não lembrou mais de nenhum lugar? Se lembrasse, será que continuaria citando nomes até fazer uma espécie de Faroeste Caboclo geográfica?
Nosso Sonho não foi a única música da dupla no estilo. No mesmo CD, encontra-se também Pra Lembrar de Você:
Guarda Cardin, Nova Aurora, Sapê, Rato e Campinho, Vagabal, Fumacê, Columbandê, Engenho da Rainha, Embariê, Casablanca e Serrinha, Nova Iguaçu, Nova Holanda, Borel, Jaqueira, Boassú, Mesquita, Coronel, Bangu, Queimados e Chácara do Céu. (...) Aribóia, Magnólia, Palmeira, Borroso e a Vintém no Castro e Pecado, Madona, Coroado e Catarinhão, Andaraí, Dendê, Cacuia, Mallet, Alemão ou Pavão, Olaria, Brás de Pina, Itaúna, Sta. Alexandrina, Pavuna, Fugueteiro e Barra da Tijuca, De Lucas, Aço, Cezarão, Porto Novo e a Cuca, Turano, Lote mil, Senador, Camará, Arará, Cajueiro, Otero e Cordovil, Valéria e Penha, Kennedy, Iriri, Gambá, Serra coral, Galo, Salgueiro e a Barão e na Formiga
Acho que ele devia tentar vender os direitos das músicas para a secretaria de educação do município, para serem usadas nas aulas de Geografia. Nunca a garotada do Rio conheceu tanto a própria cidade quanto na época que Claudinho e Buchecha estavam na moda...
Mas hoje, a discussão musical é sobre outra mania de compositores: a de encher lingüiça em uma letra incluindo nomes de lugares. Às vezes o artifício é mais sutil, como em Bebel, do Farofa Carioca:
Andando pelas ruas da cidade,
Na Presidente Vargas, paro na Central.
Eu dou bandeira na Praça da Bandeira,
Pago mico no Méier, Madureira,
Mas a mina da Vila Isabel, que é uma mulher sensacional,
Que pára o trânsito, cheia de charme,
O Rio de Janeiro é a capital
Adiante, na mesma música menciona-se ainda Irajá, Piedade, Alto (da Boa Vista) e Corcovado. Bebel é um caso em que a enumeração de lugares parece ser bem utilizada, constituindo o próprio centro conceitual da música. O problema é que, quando chega o refrão, percebemos que é apenas mais um caso de impontualidade de Seu Jorge - que conta à moça do título todos os lugares por onde passou e pegou engarrafamento, numa tentativa de ser perdoado pelo atraso. Sei não. Na minha opinião, São Gonça (aquela "Pretinha!! Uuuuh") é uma versão muito melhor do mesmo fato.
Em outros casos, a lista geográfica tem a ver com a música, mas a inserção acaba sendo meio forçada. Como Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia, na qual do nada aparecem três versos com nomes de lugares:
Uma luz azul me guia
Com a firmeza e os lampejos do farol
E os recifes lá de cima
Me avisam dos perigos de chegar
Angra dos Reis e Ipanema
Iracema, Itamaracá
Porto Seguro, São Vicente
Braços abertos sempre a esperar
Pois bem cheguei
Quero ficar bem à vontade
Na verdade eu sou assim
Descobridor dos sete mares
Navegar eu quero
Em seguida, entram também na roda Boa Viagem, Ubatuba, Grumari, Mengo, Guarujá, Praia Vermelha e Ilhabela. Ressalvas quanto à inserção das praias do Flamengo e Vermelha na letra, rebaixando seriamente o nível de pureza das águas da lista.
E como o leitor provavelmente já tinha imaginado, o recorde de nonsense, descabimento e gratuidade na utilização da geografia em uma música vai pra Claudinho e Buchecha com Nosso Sonho, onde ocorre a seguinte avalanche:
Na Praça da Playboy ou em Niterói, na Fazenda Chumbada ou no Coez. Quitungo, Guaporé, nos locais do Jacaré, Taquara, Furna e Faz-quem-quer. Barata, Cidade de Deus, Borel e a Gambá, Marechal, Urucânia, Irajá, Omosmorana, Guadalupe, Sangue-areia e Pombal, Vigário Geral, Rocinha e Vidigal. Coronel, Mutuapira, Itaguaí e Sacy. Andaraí, Iriri, Salgueiro, Catibiri, Engenho novo, Gramacho, Méier, Inhaúma, Arará.
Vila Aliança, Mineira, Mangueira e a Vintém, na Posse e Madureira, Nilópolis, Xerém. Hors Concours!!
O mais surpreendente é que, logo após esse jorro, somos brindados com
Ou em qualquer lugar, eu vou te admirar.
Porra! Como assim "ou em qualquer lugar"? Sobrou algum que ele não tenha citado? Porque desfiar toda aquela lista de comunidades em que ele admiraria a moça se, logo depois, ele ia dizer que o faria "em qualquer lugar"? Redundância? Artifício de retórica? Ou será que ele não lembrou mais de nenhum lugar? Se lembrasse, será que continuaria citando nomes até fazer uma espécie de Faroeste Caboclo geográfica?
Nosso Sonho não foi a única música da dupla no estilo. No mesmo CD, encontra-se também Pra Lembrar de Você:
Guarda Cardin, Nova Aurora, Sapê, Rato e Campinho, Vagabal, Fumacê, Columbandê, Engenho da Rainha, Embariê, Casablanca e Serrinha, Nova Iguaçu, Nova Holanda, Borel, Jaqueira, Boassú, Mesquita, Coronel, Bangu, Queimados e Chácara do Céu. (...) Aribóia, Magnólia, Palmeira, Borroso e a Vintém no Castro e Pecado, Madona, Coroado e Catarinhão, Andaraí, Dendê, Cacuia, Mallet, Alemão ou Pavão, Olaria, Brás de Pina, Itaúna, Sta. Alexandrina, Pavuna, Fugueteiro e Barra da Tijuca, De Lucas, Aço, Cezarão, Porto Novo e a Cuca, Turano, Lote mil, Senador, Camará, Arará, Cajueiro, Otero e Cordovil, Valéria e Penha, Kennedy, Iriri, Gambá, Serra coral, Galo, Salgueiro e a Barão e na Formiga
Acho que ele devia tentar vender os direitos das músicas para a secretaria de educação do município, para serem usadas nas aulas de Geografia. Nunca a garotada do Rio conheceu tanto a própria cidade quanto na época que Claudinho e Buchecha estavam na moda...
Domingo, Março 18, 2007
Cabeça vazia é a morada do capeta (repost)
Originalmente publicado em 24.05.2004
O primeiro post com esse nome foi só uma tergiversação imbecil que eu não consegui evitar. Quando escrevi esse título, a minha intenção era falar de outro assunto mais interessante: a imensa capacidade que o ócio tem de me propiciar pensamentos inúteis.
A viagem de todo dia pra faculdade (moro em Petrópolis e estudo no Rio) é especialmente profícua para o surgimento dessas asneiras. Já cansei de olhar a serra pela janela, e há muito gasto a minha hora e meia de ônibus meditando sobre temas imbecis.
Durante muito tempo, por exemplo, refleti sobre a decapitação. Tinha curiosidade sobre várias facetas desse método de execução: será que dói ou a morte é instantânea? Quanto tempo é possível ficar vivo depois de ser separado do próprio corpo? Não dá pra emitir som, já que as cordas vocais e pulmões ficam mais pro tórax, mas será que dá pra manter a consciência o suficiente pra morder a mão do carrasco ou mandar ele se fuder, ou pra mandar um beijo pra alguma gostosa que esteja por perto? Será que daria tempo de virar em direção ao próprio corpo e assistir aos próprios estertores de morte? E mais intrigante ainda, olhar pra si mesmo e finalmente ter noção de como as pessoas o vêem?
Como não cheguei às respostas e não tinha a menor vontade de descobri-las por experiência própria, o interesse por esse tema acabou passando. Pouco depois, pensando sobre segurança no trânsito (assunto que me diz respeito diretamente, com os meus 160 Km diários), ficava pensando nas várias merdas que poderiam acontecer com o ônibus. Não por medo ou excesso de cautela, mas por curiosidade mórbida. Gosto de sentar no fundo, então no caso de um abalroamento por trás eu seria um dos primeiros a dançar. Se a porrada fosse de frente, eu teria que estar suficientemente de prontidão pra me proteger com os braços da porrada na poltrona seguinte e não sofrer algum traumatismo craniano. Também prefiro a janela, e tentava imaginar como conseguir não me escalavrar no asfalto se o ônibus tombasse de lado e o vidro quebrasse. Talvez segurando no braço da poltrona, ou me apoiando na parte de cima da esquadria?
Foi dessa linha de pensamento que surgiu a questão que, se não foi a mais bizarra, foi a que me tomou mais tempo de reflexão. E se por algum motivo o busão se desgovernasse e caísse em uma dessas inúmeras pirambeiras da BR-040? Estaria o meu destino selado ou haveria um meio de não me espatifar junto com o veículo no abismo? Quais eram as minhas chances se essa hipótese horrível de repente virasse realidade e eu me visse olhando para o fundo de um grotão pela minha janela?
As possibilidades levavam todas ao mesmo ponto: o chão e a morte. Pular pela janela? Difícil, a maioria delas é selada nos modernos Globetrotter IV e Executive Flechabus da Única Turismo, equipados com ar-condicionado. Quebrar o vidro? Puxar a alavanca de emergência? Sair pela janela de ventilação no teto? Patético. A não ser que o abismo tivesse várias centenas de metros de profundidade, eu mal conseguiria me levantar da poltrona antes do impacto, e aí um abraço. Percebi que estava procurando a resposta no lugar errado: saltar do ônibus não era a saída. Mesmo que eu conseguisse me livrar da gaiola gigante, ainda estaria sujeito às leis da gravidade, e o máximo que conseguiria era me ferrar sozinho: além de na merda estaria sozinho no infortúnio, privado da reconfortante companhia dos meus 45 irmãos na fatalidade.
Existiria alguma maneira de amortecer a queda? Improvável. As poltronas não eram uma opção, a não ser que o ônibus caísse sobre as rodas – em qualquer outro ângulo, elas se tornariam inúteis.
Comecei a pensar em física, desenterrando minhas aulas do vestibular. O que mata ao cair num abismo é a aceleração proporcionada pela gravidade. A velocidade da queda aumenta em 9,8 metros por segundo por segundo (não escrevi uma vez a mais à toa; é isso mesmo, metros por segundo ao quadrado, m/s2), e no momento da colisão, seu peso estaria multiplicado várias vezes. Seu corpo não agüentaria o trauma, seus ossos quebrariam, seus órgãos internos se romperiam, você teria uma hemorragia interna e fim. A única chance seria diminuir a força desse impacto, achando alguma maneira de não ser influenciado pela aceleração do ônibus. Pensei que poderia fazer isso me pendurando nos bagageiros e soltando antes do choque, o que é ridículo, já que por inércia eu estaria com a mesma velocidade encostando ou não no ônibus.
Aí me ocorreu a resposta óbvia: só uma força contrária seria capaz de reverter ou diminuir a aceleração.
Como eu criaria essa força? Pulando. Era perfeito.
Óleo no chão. O motorista perde a direção, patina na pista, atravessa o guard-rail e o ônibus é jogado no vazio. A sensação é de voar, e seria maravilhosa se não soubéssemos todos onde o vôo vai acabar. Por poucos segundos, as quatro dezenas de pessoas param de respirar, de pensar, de sentir, numa estranha antecipação do seu estado em alguns momentos. Todos esperam bovinamente o fim da viagem, resignadamente aceitando o desenrolar dos acontecimentos.
Todos menos um. Logo nas primeiras derrapagens, o sinal de alerta em minha mente se ativa. Os pelos da nuca se eriçam, os músculos se retesam e uma descarga de adrenalina percorre minhas veias. No momento em que o Globetrotter se lança no penhasco, imediatamente abandono minha poltrona e fico em posição de salto no corredor. A cena se passa em câmera lenta na minha frente. Imediatamente antes da porrada, pulo pra cima, caindo suavemente após a destruição do ônibus. Saldo final: no máximo, escoriações e traumatismos leves.
E isso foi o fim da minha reflexão? Claro que não. Momentos após bolar essa estratégia, lembrei que depois de mim viria o teto, aterrissando nada suavemente e concluindo o serviço que a gravidade não conseguiu terminar. Foi então que desisti de pensar nisso, decidindo que a melhor saída seria alugar logo um apartamento no Rio e parar de andar de ônibus. Caso encerrado.
Além da viagem diária, são inúmeros os momentos de meditação no ócio, em casa, na faculdade, no bar, etc. Foram nesses que bolei o esqueleto de um roteiro de filme-catástrofe baseado em “Leviatã”, de Thomas Hobbes, e cheguei ao que seria o futuro anti-social ideal: viver sozinho numa ilha deserta, munido apenas de uma horta, um alambique e uma boneca inflável.
Também foi num desses momentos de ócio inútil que criei esse post.
O primeiro post com esse nome foi só uma tergiversação imbecil que eu não consegui evitar. Quando escrevi esse título, a minha intenção era falar de outro assunto mais interessante: a imensa capacidade que o ócio tem de me propiciar pensamentos inúteis.
A viagem de todo dia pra faculdade (moro em Petrópolis e estudo no Rio) é especialmente profícua para o surgimento dessas asneiras. Já cansei de olhar a serra pela janela, e há muito gasto a minha hora e meia de ônibus meditando sobre temas imbecis.
Durante muito tempo, por exemplo, refleti sobre a decapitação. Tinha curiosidade sobre várias facetas desse método de execução: será que dói ou a morte é instantânea? Quanto tempo é possível ficar vivo depois de ser separado do próprio corpo? Não dá pra emitir som, já que as cordas vocais e pulmões ficam mais pro tórax, mas será que dá pra manter a consciência o suficiente pra morder a mão do carrasco ou mandar ele se fuder, ou pra mandar um beijo pra alguma gostosa que esteja por perto? Será que daria tempo de virar em direção ao próprio corpo e assistir aos próprios estertores de morte? E mais intrigante ainda, olhar pra si mesmo e finalmente ter noção de como as pessoas o vêem?
Como não cheguei às respostas e não tinha a menor vontade de descobri-las por experiência própria, o interesse por esse tema acabou passando. Pouco depois, pensando sobre segurança no trânsito (assunto que me diz respeito diretamente, com os meus 160 Km diários), ficava pensando nas várias merdas que poderiam acontecer com o ônibus. Não por medo ou excesso de cautela, mas por curiosidade mórbida. Gosto de sentar no fundo, então no caso de um abalroamento por trás eu seria um dos primeiros a dançar. Se a porrada fosse de frente, eu teria que estar suficientemente de prontidão pra me proteger com os braços da porrada na poltrona seguinte e não sofrer algum traumatismo craniano. Também prefiro a janela, e tentava imaginar como conseguir não me escalavrar no asfalto se o ônibus tombasse de lado e o vidro quebrasse. Talvez segurando no braço da poltrona, ou me apoiando na parte de cima da esquadria?
Foi dessa linha de pensamento que surgiu a questão que, se não foi a mais bizarra, foi a que me tomou mais tempo de reflexão. E se por algum motivo o busão se desgovernasse e caísse em uma dessas inúmeras pirambeiras da BR-040? Estaria o meu destino selado ou haveria um meio de não me espatifar junto com o veículo no abismo? Quais eram as minhas chances se essa hipótese horrível de repente virasse realidade e eu me visse olhando para o fundo de um grotão pela minha janela?
As possibilidades levavam todas ao mesmo ponto: o chão e a morte. Pular pela janela? Difícil, a maioria delas é selada nos modernos Globetrotter IV e Executive Flechabus da Única Turismo, equipados com ar-condicionado. Quebrar o vidro? Puxar a alavanca de emergência? Sair pela janela de ventilação no teto? Patético. A não ser que o abismo tivesse várias centenas de metros de profundidade, eu mal conseguiria me levantar da poltrona antes do impacto, e aí um abraço. Percebi que estava procurando a resposta no lugar errado: saltar do ônibus não era a saída. Mesmo que eu conseguisse me livrar da gaiola gigante, ainda estaria sujeito às leis da gravidade, e o máximo que conseguiria era me ferrar sozinho: além de na merda estaria sozinho no infortúnio, privado da reconfortante companhia dos meus 45 irmãos na fatalidade.
Existiria alguma maneira de amortecer a queda? Improvável. As poltronas não eram uma opção, a não ser que o ônibus caísse sobre as rodas – em qualquer outro ângulo, elas se tornariam inúteis.
Comecei a pensar em física, desenterrando minhas aulas do vestibular. O que mata ao cair num abismo é a aceleração proporcionada pela gravidade. A velocidade da queda aumenta em 9,8 metros por segundo por segundo (não escrevi uma vez a mais à toa; é isso mesmo, metros por segundo ao quadrado, m/s2), e no momento da colisão, seu peso estaria multiplicado várias vezes. Seu corpo não agüentaria o trauma, seus ossos quebrariam, seus órgãos internos se romperiam, você teria uma hemorragia interna e fim. A única chance seria diminuir a força desse impacto, achando alguma maneira de não ser influenciado pela aceleração do ônibus. Pensei que poderia fazer isso me pendurando nos bagageiros e soltando antes do choque, o que é ridículo, já que por inércia eu estaria com a mesma velocidade encostando ou não no ônibus.
Aí me ocorreu a resposta óbvia: só uma força contrária seria capaz de reverter ou diminuir a aceleração.
Como eu criaria essa força? Pulando. Era perfeito.
Óleo no chão. O motorista perde a direção, patina na pista, atravessa o guard-rail e o ônibus é jogado no vazio. A sensação é de voar, e seria maravilhosa se não soubéssemos todos onde o vôo vai acabar. Por poucos segundos, as quatro dezenas de pessoas param de respirar, de pensar, de sentir, numa estranha antecipação do seu estado em alguns momentos. Todos esperam bovinamente o fim da viagem, resignadamente aceitando o desenrolar dos acontecimentos.
Todos menos um. Logo nas primeiras derrapagens, o sinal de alerta em minha mente se ativa. Os pelos da nuca se eriçam, os músculos se retesam e uma descarga de adrenalina percorre minhas veias. No momento em que o Globetrotter se lança no penhasco, imediatamente abandono minha poltrona e fico em posição de salto no corredor. A cena se passa em câmera lenta na minha frente. Imediatamente antes da porrada, pulo pra cima, caindo suavemente após a destruição do ônibus. Saldo final: no máximo, escoriações e traumatismos leves.
E isso foi o fim da minha reflexão? Claro que não. Momentos após bolar essa estratégia, lembrei que depois de mim viria o teto, aterrissando nada suavemente e concluindo o serviço que a gravidade não conseguiu terminar. Foi então que desisti de pensar nisso, decidindo que a melhor saída seria alugar logo um apartamento no Rio e parar de andar de ônibus. Caso encerrado.
Além da viagem diária, são inúmeros os momentos de meditação no ócio, em casa, na faculdade, no bar, etc. Foram nesses que bolei o esqueleto de um roteiro de filme-catástrofe baseado em “Leviatã”, de Thomas Hobbes, e cheguei ao que seria o futuro anti-social ideal: viver sozinho numa ilha deserta, munido apenas de uma horta, um alambique e uma boneca inflável.
Também foi num desses momentos de ócio inútil que criei esse post.
Drops
Não morremos! É só um momento de entressafra criativa, preguiça e - ora, veja você - muito trabalho. As coisas andam meio atribuladas para o staff Por Água Abaixo, composto de um freelancer em comunicação e ilustração e um nerd mestrando em tecnologias da comunicação (que não sou eu). Logo logo, estaremos voltando à programação normal e postando mais lavagem cerebral neste espaço ("lavagem" aqui foi naquele sentido de "nojeira que se dá para os porcos").
Enquanto não volto às boas com esse blog, vou usar o artifício infame de postar novamente um ou outro post mais interessante. Mal aí.
Enquanto não volto às boas com esse blog, vou usar o artifício infame de postar novamente um ou outro post mais interessante. Mal aí.
Sábado, Janeiro 20, 2007
não importa o tamanho do espelho, mas sim a reflexão que ele proporciona
"Quem compara sexo real com 'sexo' feito via comunicação por computador nunca fez sexo ao vivo, ou nunca fez sexo pelo computador, ou nunca fez nenhum dos dois".
Depois coloco os créditos aqui, esqueci onde li isso.
Depois coloco os créditos aqui, esqueci onde li isso.
Sexta-feira, Janeiro 12, 2007
Duh
Pra que afinal aqueles grandes vilões querem dominar o mundo? Qual a vantagem de subjugar todas as pessoas existentes?
Sempre imagino o Lex Luthor finalmente derrotando o Super-Homem e organizando a maior competição da história de "O Mestre Mandou"...
Sempre imagino o Lex Luthor finalmente derrotando o Super-Homem e organizando a maior competição da história de "O Mestre Mandou"...
Quinta-feira, Janeiro 11, 2007
a maçã
Olhou praquela maçã vermelha em cima da mesa no museu e não pensou duas vezes. Tascou-lhe uma bela mordida. Só depois se deu conta de que aquela maçã só podia mesmo ser de cera, tão perfeita que parecia.
Mas aquela estátua de cera não se importou nem um pouco. Como vantagem adicional, ainda pensou que as maçãs como aquela não têm caroços.
Mas aquela estátua de cera não se importou nem um pouco. Como vantagem adicional, ainda pensou que as maçãs como aquela não têm caroços.
Segunda-feira, Janeiro 08, 2007
pra ter uma vida melhor
Ensaiando meu futuro livro "como ser feliz, rico, inteligente e bem-sucedido em 14 minutos e como influenciar pessoas no 15o.", aí vão duas dicas que me fizeram viver melhor nos últimos meses, principalmente no período pós-eleitoral.
dica no. 1 - escolha O QUE discutir. Certos assuntos até merecem ser discutidos, mas não levam a nada na maioria das situações. Então, se você não tem um problema crônico de auto-estima nem precisa se auto-afirmar duas vezes por dia, logo após as refeições, evite iniciar ou entrar em discussões sobre qualquer coisa e seja mais feliz.
dica no. 2 (mais importante) - escolha, acima de tudo, COM QUEM discutir (créditos para a minha namorada por essa). Você pode ter uma conversa civilizada sobre política internacional, religião, futebol, execução de ditadores, guerrilhas urbanas, milícias e tráfico de drogas com algumas pessoas, embora não sejam os assuntos mais interessantes para se discutir (ver dica no. 1). Pode, também, ter arranca-rabos terríveis e ganhar diversos inimigos conversando sobre sabor favorito de sorvete, cor preferida ou BBB7 (pode dizer, peguei bem o gancho). Então, assim como eu não discuto política com o meu cachorro, também não faço isso com algumas pessoas. Essa dica é matadora. Você vai ficar eternamente grato se colocá-la em prática.
dica no. 1 - escolha O QUE discutir. Certos assuntos até merecem ser discutidos, mas não levam a nada na maioria das situações. Então, se você não tem um problema crônico de auto-estima nem precisa se auto-afirmar duas vezes por dia, logo após as refeições, evite iniciar ou entrar em discussões sobre qualquer coisa e seja mais feliz.
dica no. 2 (mais importante) - escolha, acima de tudo, COM QUEM discutir (créditos para a minha namorada por essa). Você pode ter uma conversa civilizada sobre política internacional, religião, futebol, execução de ditadores, guerrilhas urbanas, milícias e tráfico de drogas com algumas pessoas, embora não sejam os assuntos mais interessantes para se discutir (ver dica no. 1). Pode, também, ter arranca-rabos terríveis e ganhar diversos inimigos conversando sobre sabor favorito de sorvete, cor preferida ou BBB7 (pode dizer, peguei bem o gancho). Então, assim como eu não discuto política com o meu cachorro, também não faço isso com algumas pessoas. Essa dica é matadora. Você vai ficar eternamente grato se colocá-la em prática.
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